Priorá Boêmio
Morte e Drogas
Conheço pessoas que dizem que a vida é uma dádiva de Deus, que por isso deve ser respeitada e vivida de forma casta. Outros dizem que o inferno é aqui mesmo. Já ouvi até que a vida é uma obra de arte esculpida nos seios do imenso vazio.
Morte e Drogas
Conheço pessoas que dizem que a vida é uma dádiva de Deus, que por isso deve ser respeitada e vivida de forma casta. Outros dizem que o inferno é aqui mesmo. Já ouvi até que a vida é uma obra de arte esculpida nos seios do imenso vazio.
Besteira.
Prá mim, a vida é uma puta sacanagem.
Ora. Fala sério. Você nunca pensou assim? Se não pensou é porque seu mundo não é o mesmo que o meu. Nasci em um bairro pobre, cresci ouvindo fofoca de vizinho.
Sem modéstia, eu tive sorte de ter nascido bonito. tenho um porte atlético que nunca precisei cuidar. Perdi minha virgindade com a amiga mais gostosa da minha mãe quando eu tinha apenas doze anos. Fui amigo de muito “mauricinho” e comi muita “patricinha” mesmo não tendo um puto no bolso. Com toda sinceridade, a vida é uma puta sacana que, se gostar de você, te chupa e te sustenta até cansar. Eu sei do que to falando, acredite. Cheguei aos vinte e cinco anos sem trabalhar. Conheci muitos lugares e ganhei muita coisa por conhecer pessoa e ter alguma coisa na cabeça. Às vezes, uma amizade vale bem mais que um diploma. E não tô falando de fazer coisa errada não. Nunca me meti com drogas ou coisa errada demais. Provavelmente, eu teria ingressado na política se não fosse um detalhe. A puta cansou de mim. Minha sorte acabou do dia prá noite.
Saí de casa às sete horas da manhã de segunda-feira. O tempo estava muito nublado e o ar muito seco. Caminhei até a padaria mais próxima e tomei meu café da manhã. Devo ter dado dois passos prá fora quando vi um raio atingir um poste. Um clarão. E mais nada.
Acordei duas semanas depois num hospital.
Agora, diz aí? Quais as chances de alguém sobreviver a uma descarga de quinze mil volts, sofrer poucas lesões e conseguir se lembrar de quase tudo? Eu respondo.
- São poucas mano. Muito poucas. Uma em um milhão. Só dois por cento sobrevivem e com seqüelas.
Perdi dois dedos e tive vinte e cinco por cento do meu corpo queimado. Me senti como Chev Chelios em Adrenalina. A única diferença é que fiquei com meu rosto derretido.
Mas, isso aconteceu quando eu ainda tinha sorte e ela sorria prá mim. Eu sobrevivi.
O azar só veio aparecer mais tarde quando comecei a perceber que ia perdendo meus “amigos”. Eles não queriam andar com um monstro. Meu rosto ficou, digamos... Nada apresentável.
Depois de algum tempo, eu não tinha mais ninguém. Cirurgia plástica estava fora de questão e sem contar que, por sair de casa muito cedo, passei a morar com colegas. Eu não pagava nada. Eu ganhava uma grana fazendo uns bicos, no final, ele me botou prá fora. Um mês depois, tinha eu perdido tudo.
Agora, tinha que trazer a minha sorte de volta.
***
Prá mim, a vida é uma puta sacanagem.
Ora. Fala sério. Você nunca pensou assim? Se não pensou é porque seu mundo não é o mesmo que o meu. Nasci em um bairro pobre, cresci ouvindo fofoca de vizinho.
Sem modéstia, eu tive sorte de ter nascido bonito. tenho um porte atlético que nunca precisei cuidar. Perdi minha virgindade com a amiga mais gostosa da minha mãe quando eu tinha apenas doze anos. Fui amigo de muito “mauricinho” e comi muita “patricinha” mesmo não tendo um puto no bolso. Com toda sinceridade, a vida é uma puta sacana que, se gostar de você, te chupa e te sustenta até cansar. Eu sei do que to falando, acredite. Cheguei aos vinte e cinco anos sem trabalhar. Conheci muitos lugares e ganhei muita coisa por conhecer pessoa e ter alguma coisa na cabeça. Às vezes, uma amizade vale bem mais que um diploma. E não tô falando de fazer coisa errada não. Nunca me meti com drogas ou coisa errada demais. Provavelmente, eu teria ingressado na política se não fosse um detalhe. A puta cansou de mim. Minha sorte acabou do dia prá noite.
Saí de casa às sete horas da manhã de segunda-feira. O tempo estava muito nublado e o ar muito seco. Caminhei até a padaria mais próxima e tomei meu café da manhã. Devo ter dado dois passos prá fora quando vi um raio atingir um poste. Um clarão. E mais nada.
Acordei duas semanas depois num hospital.
Agora, diz aí? Quais as chances de alguém sobreviver a uma descarga de quinze mil volts, sofrer poucas lesões e conseguir se lembrar de quase tudo? Eu respondo.
- São poucas mano. Muito poucas. Uma em um milhão. Só dois por cento sobrevivem e com seqüelas.
Perdi dois dedos e tive vinte e cinco por cento do meu corpo queimado. Me senti como Chev Chelios em Adrenalina. A única diferença é que fiquei com meu rosto derretido.
Mas, isso aconteceu quando eu ainda tinha sorte e ela sorria prá mim. Eu sobrevivi.
O azar só veio aparecer mais tarde quando comecei a perceber que ia perdendo meus “amigos”. Eles não queriam andar com um monstro. Meu rosto ficou, digamos... Nada apresentável.
Depois de algum tempo, eu não tinha mais ninguém. Cirurgia plástica estava fora de questão e sem contar que, por sair de casa muito cedo, passei a morar com colegas. Eu não pagava nada. Eu ganhava uma grana fazendo uns bicos, no final, ele me botou prá fora. Um mês depois, tinha eu perdido tudo.
Agora, tinha que trazer a minha sorte de volta.
***
Passei muito tempo sem saber o que fazer.
Quando alguém mata um ente querido seu, se você souber quem foi, há a chance de punir quem lhe causou dor e sofrimento. O mesmo não acontece quando sua vida muda por causa de um fenômeno da natureza. Quem você iria culpar? Deus? Isso seria tolice. Se eu jogasse a culpa em Deus, eu não seria capaz de fazê-lo sangrar. Eu precisava projetar minha raiva de outra forma. Em outra coisa.
Não sou de perdoar nada e eu não poderia ir contra a natureza. Então, de que forma eu poderia saciar minha vontade de punir? Minha raiva só aumentava e eu precisava de uma solução rápida. Um escape. Por isso, fui ao bairro mais podre da cidade.
Há muito tempo eu tinha ido lá servindo de motorista para um filhinho de papai pervertido, mas agora era diferente. Eu não estava dirigindo um carro e nem tinha uma arma. Eu estava só e a pé. assim que dobrei a rua central, um moleque já veio me abordando.
- Ei mermão, pára aí. Que você quer?
Dia ou noite, não importava, o lugar sempre tinha o mesmo perigo. O menino carregava uma arma caseira na mão e tava acostumado a fazer aquele procedimento. Eu levantei as mãos e fiz sinal prá ele chegar mais perto.
Eu vestia uma jaqueta para frio, dessa forma escondia grande parte do meu rosto com o capuz. Ele não podia ver meu rosto. Ele se aproximou mais um pouco e eu tirei a parte que cobria meu rosto.
- caralho mano, que porra é essa?
O garoto ficou impressionado. Acho que nunca tinha visto alguém daquele jeito. Mais da metade do meu rosto estava disforme. Quando levei o choque minhas roupas pegaram fogo; depois, fiquei sabendo que queimei por algum tempo antes de uma menina notar o corpo e chamar alguém.
- Tem alguma coisa forte? – perguntei ao garoto que demorou uns dez segundos prá prestar atenção no que eu tinha acabado de falar
- Cara aqui tem tudo que você imaginar. Hei. Como foi que aconteceu? – eu sempre ouvia essa pergunta
- Depois te conto, tô meio apressado. - Ele pareceu entender.
- Man. continua andando até aquela casa amarela. Lá chama o Tito. – ele apontou a direção e fez sinal prá eu me apressar.
A rua estava vazia. Em cima das lajes eu podia ver outros garotos segurando armas. Aquela rua havia deixado de ser uma rua comum há muito tempo. As casas não tinham moradores; elas, provavelmente, serviam de depósito e refinaria. Quando cheguei à frente da casa amarela, quase como instantaneamente a janela se abriu. Nada passava despercebido por lá.
***
- Fala aí maluco. O que que tu qué? Bolinha, pó, pedra... – ele tava olhando prá baixo quando me perguntou isso... – caralho fudido, que porra é essa viado? – e disse isso quando me olhou. Esse tipo de reação me deixava muito mais aliviado. Era sincera.
- quero o bagulho mais forte que tiver.. – ele tava espantado e demorou alguns segundos pra responder.
- Tem umas porra nova aí. Entra aí, presuntinho, que eu te mostro.
A coisa tava indo bem. Minha intenção era pegar a droga injetar, cheirar, engolir. Ficar doidão e depois fazer o que viesse na cabeça. Eu sabia como a coisa funcionava. Você fica viciado e depois disso não tem qualquer outro objetivo. Talvez, só uma leve lembrança do que você foi. Com um pouco de sorte, talvez eu fizesse meu próximo aniversário a sete palmos.
Sentei em um sofá. Dentro da casa, a sala era a única coisa que parecia com uma casa normal. O pouco que eu pude ver dos outros cômodos estava com aparelhagem estranha e gente armada. O sujeito voltou e sentou ao meu lado, abriu um saco preto e começou a me mostrar umas pílulas. Ele disse que elas vieram direto da Alemanha e me explicou os efeitos de algumas. Tinha pílula prá dormir, dançar, ver coisas, viagem astral. Quanto mais ele me explicava, mais eu queria provar. Tirei todo meu dinheiro do bolso. Ao todo, eu devia ter uns seiscentos reais. Foi o máximo que eu consegui depois de ter vendido tudo o que eu tinha. Coloquei em cima da mesa e perguntei o que dava prá ele me vender por aquilo. O cara me olhou por dois segundos, se levantou sem dizer nada e entrou num outro cômodo. Fiquei pensando se eu fiz algo errado. Não demorou muito quando ele voltou trazendo um cutelo.
- Ei porquinho. Tô vendo que você num é viciado nem porra nenhuma. É a primeira vez que tá vindo aqui, né? Que porra você tá fazendo? Você tá me cheirando a merda, viado. O que você tá aprontando? Quer me fuder, caralho?
O cara ficou agitado de uma hora pra outra e eu nem sabia o porquê.
A questão é que, se você vai direto numa boca e mostra muito dinheiro ao cara, isso significa prá ele armação, câmera escondida, polícia, etc...
Ele me mandou tirar a roupa ali mesmo prá ver se eu não estava com escuta ou câmera escondida. Depois de ter revistado tudo que podia, ele me deu um soco na cara.
- Tu deve ser muito leso mesmo,! Fala aí, pra quem é a parada? – Apesar de mais calmo o cara continuava em pé e com o cutelo na mão.
Eu sabia que tinha vacilado, por que eu fiz aquilo? Enquanto eu vestia as roupas, ele se sentou e ficou olhando prá mim e esperando resposta.
- É prá mim mesmo. – Foi a única coisa que pude responder. Meu maxilar tava doendo e minha pele cicatrizada era sensível demais agora. Era a primeira vez que me metia numa briga. Gostei.
- Mentira seu merda. Tu nem sabe o que quer. Vai falando sua história aí presunto.
Contei prá ele mais ou menos o que vocês já sabem. Ele ouviu atentamente e em alguns momentos pareceu se deliciar com aquilo. Quando eu contei prá ele a parte que tirei as ataduras e vi minhas queimaduras, ele se levantou e me mostrou uma cicatriz na coxa esquerda dele. Ele disse que sabia como era. O caralho que ele sabia! Conversei com ele. Fiz a única coisa que sabia fazer de melhor na vida. Conversei. Em três horas, entre uma bebida e outra, eu havia me tornado seu amigo de infância.
Ele disse que tinha coisa melhor que aquelas porras que ele tava vendendo. Ele pegou meu dinheiro, separou metade e colocou no meu bolso. Chamou dois sujeitos e deu o restante da grana.
- Vamo se arrumar. Nois vai pra putaria hoje – ele falava aquilo com um entusiasmo medonho. Eu gostava de festa, balada, mas nunca tinha ouvido alguém falar como se aquilo realmente fosse a sua vida.
***
Era um puteiro. O cara pirava com a merda de um puteiro. Segundo ele era um lugar especial e as moças já o conheciam. Eu não entendia. O lugar era longe pra cacete, ficava numa estrada pouco usada e os caras que estavam lá eram todos uns pés rapados, exceto por uns e outros que estavam no andar de cima. Me lembrei de um drink no inferno. Ficamos lá pouco mais de cduas horas. Vieram meninas, dançaram prá gente. Elas fingiam não reparar na minha aparência. Isso sim me dava certo desconforto. O Tito deve ter ido umas quatro vezes pro quarto, sempre levando duas ou três com ele. No fim da noite, quando eu já estava cansado, ele sentou ao meu lado.
- E aí queimadinho? Fala aí? Comeu alguma? He, he, porque quem comeu, comeu, que não comeu, não come mais. Há, há! – Ele tava feliz. Ou tava muito chapado – Agora vem a melhor parte. Vamo descer e esperar no carro.
Me levantei e servi de apoio pro cara. Os dois macacos com quem ele andava nos acompanharam.
- Ei, seu puto! Vê se quando ele entrar, você não mija nas calças. Fica quieto e deixa ou dois aí segurar ele. – Eu não fazia a menor idéia do que aquele retardado estava falando.
O carro foi estacionado do lado de trás do puteiro. Coloquei ele no carona, ao lado do motora. Entrei no carro e esperei. Os segurança estavam um pouco mais longe do carro, esperando alguém.
Minutos depois, uma puta apareceu no estacionamento carregando um bêbado. Eles riam muito e estavam se aproximando de onde nós estávamos. Quando percebi, estavam a poucos passos e os seguranças estavam abrindo a porta e colocando o bêbado prá dentro.
***
- Quem é esse cara? – perguntei pro Tito. Ele tava quase dormindo. Mas, quando percebeu a movimentação, acordou de sobresalto.
- Bicho. Eu tava pensando naquela coisa que você me falou... sabe... Querer descontar a raiva em alguém por causa do que a aconteceu contigo. Aí me veio a idéia que a gente podia pagar uma puta prá trazer um desses doidos que tava lá dentro prá gente descontar junto nossa raiva. E aí? Vamo lá ou será que vai dar prá trás, queimadinho?
O cara no banco de trás já tava dormindo e os seguranças estavam fechando as portas. Por um momento fiquei sem reação. A idéia de arrebentar um bêbado não era má. Eu não odiava ninguém, mas queria experimentar a sensação de deixar alguém tão ferrdao quanto eu fiquei. Quem sabe eu me sentiria melhor depois de dar uma caralhada de ponta pé num bicho desses. Provavelmente ele nem ia sentir mesmo, tava quase entrando em coma alcoólico.
- Fala prá onde mano. – Ele deu um sorriso sacana e pediu prá seguir a diante.
Seguimos por quase uma hora antes de dobrar numa estrada escondida que só ele sabia onde ia dar. Avançamos mais uns dois quilômetros e paramos. Descemos do carro e caras tiraram o bêbado do banco de trás. Caminhamos por uns quinze minutos até chegarmos num local que eu só tinha visto em filmes, um local de desova.
Tava escuro, mas eu podia perceber pelo cheiro que aquilo ali era usado com certa frequência. O cheiro era forte demais, carne podre. O Tito tirou uma carteira de cigarro do bolso e me ofereceu um. Eu não fumava, mas tava ficando difícil aguentar aquele cheiro. Aceitei.
- Cabeludo traz o viado prá cá. – Um dos caras agarrou o bêbado e levou até o centro. A mata era fechada, mas a lua estava cheia e deu prá ver o quê o Tito tava fazendo. O homem tava deitado, imóvel. Estava dormindo.
- Ei, queimadinho. Acho que tu não sabe de uma coisa – ele pegou um pedaço de madeira comprido – daqui há duas semanas eu tô comemorando a morte do meu irmão. Aquele merda morreu e me deixou no lugar dele. Meu irmão era um dos caras mais fodas que eu conheci – ele se aproximou do bêbado e começou a cutucar a cabeça dele com pedaço de madeira - Aí, sem mais nem menos ele morre, e eu fico tomando conta daquele lugar. Sabe o que eu acho queimadinho? – balancei a cabeça em negativa – acho que hoje foi esse aqui que matou meu irmão. – Ele levantou a madeira que estava nas mãos e desceu com força, acertado a perna esquerda do corpo no chão.
O bêbado não acordou, só deu um gemido.
- Quer experimentar? Toma, é tua vez.
Era exatamente como imaginei. Eu podia bater no cara que ele não ia acordar. Eu só tinha que bater nele até ficar cansado e, quem sabe, saciado. Aquele era meu escape.
Avancei em direção ao corpo que estava de bruços. Naquele momento pensei na primeira vez que vi minha imagem refletida no espelho depois que saí do hospital. Eu não tinha mais a orelha do lado esquerdo. Dei um chute que pegou no braço do cara no chão. Dei mais um. Mais outro. Outro.
- Acorda porra!!!. – Dei um último chute e empurrei o corpo dele pra cima.
Com certeza não era como bater num saco de areia. Era diferente. Eu tava suado e meio tonto. Afastei-me e olhei pro Tito. Fiz sinal e ele avançou.
As pancadas que o Tito dava eram sempre na perna. Sempre que ele descia com o pedaço de madeira gritava alguma coisa tipo um palavrão ou alguma coisa sobre o irmão dele. Eu não prestava atenção. Eu só via o cara no chão e dizia prá mim mesmo: ele merece.
Ficamos ali por quase duas horas batendo naquele cara. Parávamos, fumávamos e depois voltávamos a bater. Estávamos de certa forma nos divertindo.
O cara chegou a acordar uma vez. Ele olhava sem entender, mas os ossos deviam estar partidos em vários pedaços e a carne em vários pontos eram tomates amassados. Fizemos questão de não acertar a cabeça, não furar ele para que durasse mais. O cara no chão tentou gritar, mas conseguiu apenas vomitar sangue. Não dava prá ver direito o rosto dele, parecia que estava chorando ou tentando chorar...
- Cara, eu já cansei, vamo embora. Já tá quase amanhecendo. – Ele falou, pegando no meu ombro enquanto eu ainda acertava uma ultima vez bacia daquele sujeito.
Olhei prá ele. Acertei mais um chute, virei de costas e me pus a caminhar em direção ao carro.
- Sabe de uma coisa, queimadinho? Eu tô com vontade de fuder literalmente com esse cara aqui. Mas, não gosto dele vivo – olhei pra trás. Não deu tempo de dizer nada. Vi o Tito sacar a arma e estourar os miolos do cara. – Assim é bem melhor.
O cara tava tirando a roupa do morto. Fiquei enjoado, mas não podia demonstrar. Voltei a andar em direção ao carro. Passando pelos seguranças, ouvi:
- Vai, seu fuleiro desgraçado!!! Vai beber!!! cú de bêbado não têm dono!
Entrei no carro e esperei. Devo ter ficado ali por poucos minutos que pareceram uma eternidade. Eu não tava arrependido. Não tava com remorso. Não sentia nada. Nem satisfação.
Quando eles voltaram, só o Tito tava com o sorriso no rosto. Os macacos estavam indiferentes. Provavelmente, não era a primeira vez que viam algo assim. No caminho de volta ficamos calados.
Me deixaram, a meu pedido, longe do bairro. Pouco antes de partirem, o Tito gritou.
- Ei queimadinho. Nem preciso dizer que esse negócio fica só entre nóis, né? Bico calado, viado. ano que vem, me procura prá gente descontar mais uma vez em alguém. - Gostei do motivo. – Ei, porra! Depois de tudo isso, me dei conta que eu não sei teu nome.
Olhei pra ele por alguns instantes. Eu poderia dizer, eu poderia mentir, de qualquer forma não importava minha vida acabava de ser marcada por atos de violência que beiravam a insanidade. Realmente não importava. E ele parecia entender isso tanto quanto eu.
- ta certo, tanto faz.
Então cada um tomou uma direção, mesmo não tendo nenhuma direção a seguir...
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